14/06/2016

O livro dos Espíritos


Sempre tenho a sensação que nunca estou sozinho, mesmo quando estou em casa "sozinho", assistindo um filme, no vídeo game. Até durante o dia, vejo sombras no corredor, mas acho que são apenas as plantas da vizinha se mexendo com o vento. Acho...

 Mas a história que vou relatar, não foi uma simples sombra que eu vi. Foi algo um pouco pior.

 Estava voltando do curso a noite, por volta de 23h30min. Vou de metro, e depois pego lotação da estação até a esquina da minha casa. Do ponto até em casa, levo menos de 5 minutos. Mas hoje eu digo que foram os 5 minutos mais terríveis da minha vida, desejaria que nunca tivesse visto aquela imagem. Depois que desço da lotação, vou caminhando pela calçada para chegar à esquina e assim subir a rua da minha casa. Nesse percurso, passo ao lado de uma escola. É um terreno grande, mas o prédio da escola não é construído na totalidade do terreno. Tem uma parte com mato e arvores. Essa hora da noite, o prédio está vazio. Ou deveria estar...

 Ao passar ao lado da escola, infelizmente criei o hábito de olhar as janelas das salas e imaginar como deve ser uma escola a noite. Mas em uma bela noite, olho pra janela e vejo uma menina bonita, traços orientais e um cabelo bem preto e comprido. Percebi que ela também me viu. Eu estava tão cansado da aula que nem liguei que era estranho àquela hora da noite ter alguém em uma escola fechada. Quando cheguei em casa, deixei minhas coisas no quarto e fui tomar banho. Durante o banho, não faço a menor ideia do motivo que me levou a isso, mas fiquei lembrando de filmes de espíritos, quando a pessoa está tomando banho e aparece o infeliz. Nesse momento, tive a impressão de ter ouvido um choro. Mas como a janela do banheiro ficava próximo a casa da vizinha, achei que tinha vindo de lá. Tomei meu banho, e fui comer alguma coisa. Fiz um lanche básico, com um copo de suco. Sentei a mesa e liguei a TV. Estava passando um filme sobre espíritos. Terminei de comer, escovei os dentes e fui dormir. Quando me deitei na cama, tive a sensação de peso, como se estivesse carregando peso, ou quando alguém deita em cima de mim. Mas como estava muito cansado, dormi logo.

 No dia seguinte, soube que a escola tinha sido invadida naquela madruga, na hora lembrei-me da menina que eu vi. Fizeram uma zona no prédio, jogaram as carteiras longe, derrubaram todos os livros, aquela zona de adolescente. Mas fiquei pensando, como uma menina tão bonita e jovem como aquela, faria isso. Logico que não estava sozinha. Pensei comigo mesmo: "Esse mundo está perdido mesmo, depois quero ver essa molecada reclamar que não tem nada na escola, que a escola é isso, escola é aquilo..." Enfim, mas ouvindo os boatos dos vizinhos, falaram que não roubaram nada. Eu tenho um colega chamado Sandro, que trabalha na escola e ele tem acesso aos vídeos das câmeras de segurança de lá. Conversei com ele se tinha visto algo e ele me chamou pra ver algumas imagens que ele pegou das câmeras pra me mostrar. Fomos a casa dele, e no seu notebook, ele colocou o dvd das gravações. A escola fecha as 19h, então a partir dessa hora, não ouve nada de estranho. Quando o vídeo chegou no horário de gravação de 23h30min aproximadamente, que as câmeras captaram alguma coisa. Deu pra ver a imagem de uma menina, jovem, aproximadamente 16 anos, cabelos negro e bem comprido e preto... Falei para Sandro, que eu tinha visto ela pela janela quando desci da lotação. Mas umas coisas intrigaram a nós dois. A primeira delas não dava pra ver exatamente seu rosto. A câmera desfocava exatamente no rosto dela. Outra coisa que nos intrigou, foi ela ter feito àquela bagunça inteira, SOZINHA, isso mesmo. As câmeras não captaram mais ninguém, somente essa garota. E porque ela teria feito isso? Continuamos assistindo as imagens e ai vem uma das cenas que deixou os dois com muito medo. Naquela escola, existem câmeras dentro das salas de aula, dentro da biblioteca e corredores. Ele me explicou que os livros que foram jogados no chão, eram da biblioteca e as carteiras que foram reviradas de apenas uma sala de aula específica.

 Depois de assistir tantos filmes, ler livros, assistir animes sobre esse assunto, ficamos curiosos e resolvemos investigar a sala do ocorrido. Sandro conseguiu ter acesso aos arquivos dos alunos da escola. Aquela sala sempre foi de ensino médio, então começamos a consultar os arquivos da escola para descobrir se tinha algo relacionado. A escola era muito antiga, então teve muitos alunos. Consequentemente, levamos certo tempo nessa procura. Achei os documentos de 3 alunas orientais do ensino médio. Mas uma nos chamou a atenção. Nunca vou esquecer seu nome. Lia Sadako Yamamura. Ela estudava naquela sala e lembrava muito a menina das imagens das câmeras. Era uma adolescente muito bonita, de cabelos grandes e negros. Tinha boas notas e nenhuma reclamação anotada.

 Como estava ficando tarde e a escola já ia fechar, fomos embora. Mas antes de sair, conversamos com o diretor, e enchemos o saco dele para deixar agente ficar com uma copia da ficha daquela aluna. Claro que o diretor não deixou, mas antes de pedir, tiramos uma cópia escondida. Fui para minha casa e Sandro foi para casa dele. Mas continuamos nossa investigação, nos comunicando pela internet. Enquanto Sandro estava onde ela morava, eu tentava descobrir alguma noticia de morte ou desaparecimento de alguma aluna daquela escola. Olhando na internet, achei em um site de pessoas desaparecidas. Segundo informações, ela estava desaparecida há alguns dias, foi para a escola, mas não retornou. Sandro verificou a ficha da escola e eu o endereço onde ela morava. Pedi para ele me passar para que eu pudesse ir até lá. Sandro começou a me questionar se deveríamos mesmo continuar com essa investigação, afinal, não éramos da policia nem nada da garota. Mas eu estava muito curioso para saber toda a verdade, então fui até a residência de Lia mesmo assim. Por sorte era na mesma rua da escola. Uma casa humilde e com muitos traços orientais na sua estrutura e seu interior. Toquei a campainha e apareceu uma senhora. Falei que era colega de Lia e queria algumas informações sobre o desaparecimento. A senhora me convidou para entrar. Disse que era mãe de Lia, se chamava Yoko.

 Yoko disse que ela desapareceu, foi para escola e não voltou mais, não ligou, não deu nenhum sinal de vida. Yoko disse que chegou a ligar para algumas amigas dela, mas nenhuma delas sabe ou teve notícias de Lia. Perguntei se Lia já tinha sumido assim, mas recebi uma resposta negativa: "Nunca, Lia sempre foi atenciosa, carinhosa e gentil. Se ela demorasse 1 minuto pra chegar em casa, ela ligava e avisava." Falou que Lia era uma adolescente alegre, adorava estudar. Contou que Lia sonhava em ser modelo e que começaria um curso ainda esse ano. Perguntei sobre o dia que ela desapareceu e ela me disse que na mesma semana, seu comportamento mudou. Ela estava quietinha, não queria sair, mesmo com seu aniversário chegando. Pedi para ir ao quarto de Lia e sua mãe deixou. Seu quarto era típico de uma adolescente de sua idade. Cd´s, ursinhos de pelúcia, livros, fotos com as amigas, etc... Mas uma coisa me chamou a atenção, era um livro em sua estante. Tinha uma capa escura, de couro e um desenho estranho em traços dourado em sua lateral. Como queria ler seu conteúdo, saber que livro era aquele, pedi para sua mãe pegar um copo de água para mim (apenas para disfarçar, queria mesmo era ver aquele livro). Quando ela saiu, peguei o livro e percebi que era um livro antigo, não dava para ler seu título, pois as letras já tinham descascados. Mas tinha um desenho logo abaixo do nome, que mesmo descascado, deu para reconhecer o que era: Imagem de um pentagrama



 O que será que uma adolescente fazia com um livro com esse símbolo? Ao abrir, tinha um recado escrito com letras bem garranchosas: "Siga tudo, passo a passo, ou o ritual não funcionará." E com outra letra, bem diferente dessa, mas também bem feia tinha um nome: "Roger Silva".

 Ouvi passos e percebi que era a mãe de Lia que voltava, escondi o livro na cintura da calça. Queria muito ler seu conteúdo e descobrir quem era esse tal Roger. Bebi a água e me despedi da pobre moça.
Sai da casa e virei à esquina, assim que dei mais alguns passos, liguei para Sandro e falei sobre o livro. Ele pediu para eu ir à sua casa para verificarmos. Quando ele viu a letra do recado na contracapa, ele reconheceu a letra e o nome. Era do faxineiro da escola, e seu nome era Roger.

 Dessa vez, eu que comecei a pensar se deveria mesmo continuar essa investigação, afinal, não era mesmo da polícia nem era parente nem nada da adolescente. Sandro disse que ia conversar com esse Roger. Peguei o livro e fui para minha casa, para lê-lo com mais calma e entender o que aconteceu. Era noite já quando comecei a ler o tal livro. Falava muitas coisas sobre rituais satânicos, espíritos e coisas do gênero. Uma das passagens do livro me intrigou. Falava de uma certa forma de invocar espíritos malignos. Era um texto pequeno, mas muito assustador. Nele, a pessoa tinha que matar 15 pessoas, mas cada uma de um jeito em específico. Uma pessoa tinha que morrer afogada em uma lagoa no inverno, outra pessoa deve sofrer um "acidente" de carro. Uma pessoa tinha que ter 34 anos e ser loiro. Cada um com seus detalhes descritos. Mas as três ultimas me deixaram com medo. "A 13ª morte tinha que ser uma criança de 16 anos, oriental, e deveria ser estuprada e ter seu corpo queimado. A 14ª morte tinha que ser um rapaz jovem, forte e matá-lo a golpes de facão". Quando li essas duas mortes, comecei a ligar as coisas. O tal Roger, estava tentando invocar o algum espírito maligno e estava próximo de conseguir. Quando lembrei que Sandro disse que iria até sua casa para conversar com ele, fiquei desesperado. Peguei meu celular e tentei ligar pra ele. Caixa postal... Fui até a casa de Roger, toquei a campainha e nada. Gritei seu nome e nada. Quando na casa vizinha, aparece uma senhora na janela e diz: "Ele saiu tem pouco tempo. Parecia que ia viajar, jogou umas malas no carro e saiu." Perguntei: "Tinha mais alguém com ele?" ela respondeu: "Eu reparei que chegou um rapaz ai por volta de 1 hora atrás. Mas não vi o saindo não. E olha que fiquei o tempo todo olhando a rua."

 Comecei a ficar com mais medo, liguei mais uma vez para o celular do meu amigo e mais uma vez, caixa postal. Gritei seu nome e nenhum sinal. Desesperado, pulei o portão e fui em direção à porta. Bati e ninguém respondeu. Gritei mais uma vez e nada. Tentei abrir a porta e ela estava aberta. Abri devagar, com medo de estava por vir. Quando entrei, me deparei com a cena que não queria ver. Meu amigo estava jogado no chão, sem vida. Ele foi brutalmente assassinado. Havia sangue por todos os lados. Entrei em desespero não sabia o que fazer. Peguei o celular para avisar a policia, mas quando apertei o primeiro numero, vi que parou um carro na frente da casa. Um homem desceu. Era alto e porte atlético, cabelos grisalhos, barba por fazer. Ele veio em direção a casa. Quando a vizinha o chama: "Senhor Roger, teve um rapaz aqui procurando o senhor tem poucos minutos." Ele responde: "Vai dormir, velha fofoqueira. Fica o dia inteiro nessa janela e não faz porra nenhuma da vida." Ele voltou a caminhar em direção a casa. Olhei para os lados ainda meio atordoado com a cena, e fui me esconder atrás do sofá. Ele entrou na casa e reclamava consigo mesmo: "Cacete, onde deixei o livro? Falta apenas uma morte. Preciso ver se tem mais alguma coisa depois da ultima morte. Aquela vagabundinha que matei semana passada mexeu nas minhas coisas na escola. Será que ela o pegou? Esse cara aqui devia saber alguma coisa. Ele e aquele amigo curioso. Ele será a ultima pessoa que vou matar, depois disso, meu ritual estará completo."

 Ao ouvir isso, senti meu coração parar de bater, um gelo na espinha... Roger saiu da casa, ouvi o barulho da porta do carro batendo e o carro saindo em disparada. Pensei: "Meu Deus, isso não pode ser verdade, porque eu tive que me meter nessa historia." Esperei um tempo e sai da casa. Fui embora correndo, com medo daquele maníaco voltar. Cheguei em casa e minha mãe vem ao meu encontro e diz: "Filho, a mãe do Sandro ligou e perguntou dele. Você sabe alguma coisa?" Com medo da reação de minha mãe, não falei nada, apenas disse que não sabia de nada. Voltei para meu quarto e não parava de pensar em tudo o que tinha acontecido. Sandro estava morto, brutalmente assassinado e eu era o próximo. Fui ler como seria a próxima morte. "15ª morte: a vítima terá que ser assassinada no dia 15 de outubro." Fiquei com mais medo ainda, hoje é dia 14 de outubro...


 Estava desesperado, mas acabei cochilando. Acordei com um barulho imenso em minha casa. Alguma coisa caindo no chão, algo pesado. Abro a porta do meu quarto devagar e ouço passos na sala. Já comecei a pensar no pior. Roger descobriu onde eu moro e veio aqui me matar. Ouço a porta do quarto de minha mãe abrindo e ela chama: "Filho, é você? O que você derrubou?

 Mas o pior estava para acontecer. Minha mãe vai andando pelo corredor e de repente grita bem alto. Ocorre um barulho de algo batendo, ela grita e cai no chão. Alguém matou minha mãe. Continuo ouvindo passos, mas dessa vez, como se eles estivessem vindo em direção ao meu quarto. Deitei correndo em minha cama, e peguei debaixo do meu travesseiro, um canivete que comprei em uma viagem havia uns dois anos. Abri a faca do canivete e escondi debaixo da coberta. Em milésimos de segundo, comecei a pensar na minha morte, como seria, se iria doer, se eu não ia sentir, se eu veria alguém do outro lado. Os passos chegaram em frente a porta do meu quarto e pararam. Fingi que estava dormindo, então ouço a porta do meu quarto abrindo bem devagarinho. Os passos agora mais suaves, mas igualmente pesados, vinham mais devagar em direção a mim. Mas se fosse mesmo Roger, ele só poderia me matar amanha. Mas não tinha percebido que já se passavam da meia noite. Quando senti que Roger se aproximou, não pensei duas vezes, avancei em direção ao seu pescoço, como uma fera selvagem e com o canivete na mão, fiz um corte de orelha a orelha em seu pescoço. Roger cambaleou alguns passos para trás e caiu, agonizando no chão. Em seus últimos sinais de vida, Roger desenhou um estranho símbolo no chão com seu sangue. Era igual ao símbolo da capa do livro. Quando ele terminou, seu braço tombou de lado, já sem vida. Poucos segundos depois, quando achei que tudo tinha acabado, o pior aconteceu. O símbolo que Roger desenhou no chão, não era um símbolo qualquer. Após alguns segundos de seu falecimento, o símbolo que ele desenhou, começou a brilhar bem forte. De repente essa luz vem em minha direção e me atinge, jogando meu corpo contra a parede e me fazendo cair na cama...

 Duas semanas depois, enquanto passava O jornal Nacional, vem a noticia: Jovem de apenas 23 anos, mata a mãe e o amigo e desaparece. A polícia suspeita que ele usava drogas e participava de rituais de magia negra, pois em seu quarto foi encontrado um livro que ensinava como evocar espíritos. Até agora ninguém tem notícias do rapaz, a única pista que a policia tem, é o tal livro. Nossa repórter conseguiu com exclusividade, entrar no local onde ocorreram os assassinatos.

 A repórter começou a mostrar o quarto onde ocorreram os assassinatos, e a câmera foca exatamente o livro citado na chamada da notícia. O livro estava no chão, aberto em uma pagina que estava escrito: "Após a morte da ultima vítima, o espíritos malígno possuirá o corpo do assassino." Até hoje a ninguém sabe o que aconteceu com o jovem rapaz... por Guilherme Julio Borges da Silva

http://www.apocalipse2000.com.br/contos26.htm

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